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A teta assustada, parte 2

Graças a um postador do Youtube, pude rever esses dois trechos do filme A Teta Assustada, comentado há alguns meses atrás. O primeiro me impressiona pela força do quéchua e da crueza da narrativa; o segundo, pela profundidade e lirismo.

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Raatukama, Don Sixto…dyusulpaa!

Por acaso, soube apenas no sábado que o mestre da chacarera e dos quichuístas argentinos, o grande Don Sixto Palavecino, faleceu desde abril em sua querida Santiago del Estero. A correria da vida é tanta que não acompanhei esse fato, e só agora posso lamentá-lo.

Don Sixto é o artista argentino por excelência. Respeito muito o tango portenho e Piazolla, mas a alma do país é o “folklore” do Noroeste, com seus vários ritmos. Chacareras, zambas, gatos, vidalas, carnavallitos, cuecas, yaravís. Basta ouvir o “bombo legüero” tocar para saber onde se está. E o violino de Don Sixto, que soube manter viva por mais de 60 anos a cultura quichuísta de Santiago e legou às novas gerações uma tradição que não pode ser abandonada.

Claro que Atahualpa Yupanqui é um mito, e o folklore está longe de acabar. Que o digam León Gieco, Suma Paz, Soledad, o Chaqueño e outros. No entanto, a poesia do Palavecino tem algo de suave que não é tão fácil de encontrar pelos caminhos. Só espero que, quando finalmente eu possa conhecer Santiago, ainda encontre “los quichuístas que cantan chacareras al llegar la tardecita”. Para “caminar sin hacer ruído, sin despertar el cachillo dormido”. Raatukama, Don Sixto, dyusulpaa (até logo, e obrigado)!

Vídeo dos anos 80, com chacarera bilíngue (quíchua santiaguenho e castelhano):

A Teta Assustada

Esse poster resume bem o que é esse lindo A Teta Assustada, produção peruana de Claudia Llosa. Um delírio no meio do deserto, em que tanto o sonho como o terror do passado se cruzam de um modo assustador.

O filme me ganhou quando os personagens e a origem do medo (e da doença da teta assustada) são revelados numa sequência linda de canções em quéchua entre mãe e filha, ambas vítimas de um estupro por membros do Sendero Luminoso. Nenhum peruano gosta de mencionar esse nome, que é substituído por “terroristas”. Ouvir um relato cru da maldade e do amor cruzados entre ambas na língua mais bonita do mundo foi uma experiência incrível. Garanto que até um balanço contábil de S/A lido em quéchua emociona.

Ao longo de toda a trajetória mostrada por Llosa entre festas e favelas tipicamente peruanas, com um belo contraste das montanhas e do solo com papel-crepom e vestidos, a protagonista Fausta (a excelente atriz Magaly Solier)  tenta, de algum modo, proteger-se contra o mundo provocando-lhe nojo por um ato, no mínimo surreal. Uma espécie de odisséia feminina muito particular que carrega um medo irracional vindo do passado, e que parece tão impossível de ser enterrado como o cadáver da mãe.

No fundo, A Teta Assustada não fala sobre terrorismo ou mesmo sobre a cultura de festa permanente do Peru (sim, tudo aquilo é 100% verdade); a proposta que ficou pra mim, um dia depois, é de pensar como alguém pode se libertar do Mal e se deixar incorporar ao mundo de novo, quando a visão inicial dele foi de horror. Cena final linda, que me fez lembrar da minha própria emoção de estar no Peru, um eterno deserto colorido.

Visto no Cinema da Fundação