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Cariñito

Um dos clássicos da música andina, especialmente do Peru, é esse huayno chamado Cariñito. Uma graça. Mas o melhor de tudo é comparar as muitas versões da música, com graus de originalidade, breguice e inovação a gosto do ouvinte.

Primeiro momento: sikus e charango, o huayno tradicional.

Segundo momento: uma cumbia pra esquentar. O destaque vai para a mise-en-scene e o biquini da protagonista.

Terceiro momento: música andina mais contemporânea, um rock instigado.

Se o leitor ouviu as três, por favor mande seu voto nos comentários 🙂

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O “drama” dos brasileiros

Nessa última semana, a notícia mais irritante para mim foi a dos brasileiros isolados em Machu Picchu, devido às fortes chuvas no Peru. Chegaram a chamar Águas Calientes, um balneário turístico de apoio no sopé do Putucusi e perigosamente nas margens do Rio Urubamba, de “cidade inca”, como no link abaixo do JC. No dia que Águas Calientes for isso aí, Recife será uma metrópole asteca.

Essa história passou dos limites por criar uma tempestade num copo d’água. Quem já teve a felicidade de ir a Machu Picchu de trem, saindo de Cusco e chegando em Águas Calientes, sabe que a região é chuvosa e muito, mas muito complicada em termos de acesso. O Rio Urubamba é forte (vide foto acima, tirada por este que vos escreve) e Águas está num processo de favelização de hostales, com um em cada esquina e desmatando as encostas da montanha. A chuva provoca, dentre outras coisas, a interdição programada dos acessos em fevereiro, e historicamente causa o fechamento de estradas, acidentes de ônibus devido a guaycos, mortes e um sem-número de problemas.

 E onde entram os brasileiros? No falso drama criado pela imprensa decadente dessas bandas. Numa cidade que vive de turismo e tem literalmente um restaurante por habitante, não há quem possa passar fome. Dormir em lugar improvisado, qualquer mochileiro sabe como é. Turista rico? Vai pro Machu Picchu Lodge, com quartos caríssimos e piscina privativa. O resto é esperar abrir a estrada com calma e remarcar a passagem, e aproveitar a estada forçada para acabar o estoque de maiz tostada e pisco sour do vilarejo. E, se solteiro(a), investir no networking afetivo transcontinental.

Mas, pelo visto, até os mochileiros do Brasil curtem uma de turista prego CVC. Queriam que fosse deslocado um avião da Minustah no Haiti pra resgatar pobres brazucas isolados na selva peruana, quando o governo local está cuidando da situação? Coisas da vida. Em 2007, passei 1 dia inteiro esperando a reconstrução de uma estrada em Cotagaita, interior da Bolívia, sem água nem comida. O rio bateu na janela do ônibus e quase virou o bicho, mas se não aguentasse não teria ido. 

Agora torço de verdade para que tudo seja reconstruído o mais rápido possível, e que esse tormento sirva para o governo peruano dar um freio na ocupação desordenada de Águas Calientes e implantar um maior controle no acesso de Machu Picchu, que é um dos lugares mais espetaculares onde alguém pode estar.

A Teta Assustada

Esse poster resume bem o que é esse lindo A Teta Assustada, produção peruana de Claudia Llosa. Um delírio no meio do deserto, em que tanto o sonho como o terror do passado se cruzam de um modo assustador.

O filme me ganhou quando os personagens e a origem do medo (e da doença da teta assustada) são revelados numa sequência linda de canções em quéchua entre mãe e filha, ambas vítimas de um estupro por membros do Sendero Luminoso. Nenhum peruano gosta de mencionar esse nome, que é substituído por “terroristas”. Ouvir um relato cru da maldade e do amor cruzados entre ambas na língua mais bonita do mundo foi uma experiência incrível. Garanto que até um balanço contábil de S/A lido em quéchua emociona.

Ao longo de toda a trajetória mostrada por Llosa entre festas e favelas tipicamente peruanas, com um belo contraste das montanhas e do solo com papel-crepom e vestidos, a protagonista Fausta (a excelente atriz Magaly Solier)  tenta, de algum modo, proteger-se contra o mundo provocando-lhe nojo por um ato, no mínimo surreal. Uma espécie de odisséia feminina muito particular que carrega um medo irracional vindo do passado, e que parece tão impossível de ser enterrado como o cadáver da mãe.

No fundo, A Teta Assustada não fala sobre terrorismo ou mesmo sobre a cultura de festa permanente do Peru (sim, tudo aquilo é 100% verdade); a proposta que ficou pra mim, um dia depois, é de pensar como alguém pode se libertar do Mal e se deixar incorporar ao mundo de novo, quando a visão inicial dele foi de horror. Cena final linda, que me fez lembrar da minha própria emoção de estar no Peru, um eterno deserto colorido.

Visto no Cinema da Fundação

Sobre a foto

Antes que me esqueça: nesse layout novo, caiu melhor essa foto que tirei do Rio Urubamba no Peru, na viagem de trem entre Cusco e Machu Picchu em 30/12/2007. Pequeno momento de calmaria numa correnteza assustadora, especialmente quando vista de cima.