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Um homem sério

Após um mês com dificuldades de postar no blog, retomo os comentários sobre cinema. Agora são apenas isso – comentários, nada de crítica elaborada.

O Um homem sério (A serious man), dos irmãos Joel e Ethan Coen, deixou-me bastante feliz. A proposta de narrar uma história que misture traços autobiográficos, composição de uma época, o dilema entre razão e fé e o peculiar senso de humor dos irmãos deu muito certo, seguindo a trilha do último deles, Queime depois de ler.

É bem sintomático que os melhores filmes sobre crença em Deus e busca por explicações inexistentes, como para as desgraças em série do pobre Professor Larry Gopnik (em genial interpretação de Michael Stuhlbarg), partam de olhares deliberadamente ateus. Por meio da comédia os irmãos Coen fazem lembrar algum traço do Ondas do Destino de Lars von Trier. O problema é que, dessa vez, esse Ser Supremo parece agir como um manipulador sádico, que castiga até quando aparentemente poderia ajudar, como na morte do amante da mulher de Larry. A tensão é, como sempre, bem explorada, e há um indício de que certos conflitos humanos são tratados com um pouco mais de respeito pela dupla. Muito bem!

Visto em DVD, 26/06/2010.

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Anticristo

Apesar da ansiedade, demorei pra ver Anticristo, o novo filme de Lars von Trier e que chegou aos cinemas daqui cheio de goga. Quem não lembra do momento Ecce Homo de LvT em Cannes, com direito a “por que meus filmes são tão bons” e tudo?

Bem, só posso dizer que o filme…é. Nem bom nem ruim, apenas um filme de horror filmado por alguém com sabida inteligência e domínio da linguagem. O problema está na autoimportância que Trier parece dar à sua (des)construção da figura feminina que, de tão surrada, mal lembra Dogville ou, num momento mais felizinho,  Ondas do Destino. Ou, ainda, na perda de força de alguns efeitos de dominação psicológica que soam coreografados, sem um ímpeto natural. Basta comparar a tragédia da “mulher” de Anticristo com a de Selma, a “mulher” de Dançando no Escuro, para ver a diferença de impacto.

No entanto, um aspecto me cativou em Anticristo: o papel da natureza. LvT apresenta o real como o espaço da destruição e não da criação, numa luta infrutífera do homem em se despregar da terra. A vida seria, de fato, o reino do mal em que tudo o que nasce – as crias mortas – está corrompido? A questão é interessante, mas o modo calculadinho e esquemático de apresentar essa proposta prejudica, novamente, sua ressonância em quem assiste.

Talvez LvT devesse repensar seu cinema ou, no fim das contas, esteja rindo de todos e feliz com seu horrorzinho bem feito. Pessoalmente, gostei muito de O grande chefe e continuo curioso com o que vem pela frente.

SPOILER: não gostei da raposa, apesar da corretíssima afirmação. O gran finale da tesourada foi um tanto patético, mas o desgraçado do LvT acertou em cheio com aquele piercing macabro de tornozelo. Meio teen esse comentário 🙂

Visto no Cinema da Fundação, 10/10/2009.

PS – para uma boa crítica, além do Cinemascópio, sugiro uma encontrada ao acaso: http://www.cinequanon.art.br/estreias_detalhe.php?id=1363&num=2

Direito e cinema

Atendendo a pedidos diversos  (André, Marcela, Jane e Talita), remexi nos meus arquivos e encontrei uma lista de filmes que considero importantes para a formação dos alunos. Não que sejam imperdíveis ou essenciais, mas servem para despertar, de várias formas diferentes, um questionamento acerca do papel do direito – assim como desmistificá-lo.

Por enquanto, aí estão 10 sugestões. Cortei filmes fundamentais para mim (Asas do Desejo, Solaris, Trono Manchado de Sangue) e fugi do esquema de filmes policiais de Hollywood que, em geral, são bem repetitivos. Aos poucos vou me lembrando de mais alguns. Vamos lá:

Laranja mecânica (S. Kubrick) – clássico dos anos 70, faz repensar o papel do Estado e dos controles no mundo de hoje. Tratamento Ludovico, quem topa?

Dogville e Manderlay (L. von Trier) – nesses dois, temos a velha e boa questão: o que é viver em comunidade? Desse ninguém sai ileso.

Edukators (H. Weingartner) – Momento de reflexão sobre a juventude e a difícil quebra dos padrões sociais. Indicação especial para a galera abaixo de 20

O sol é para todos (R. Mulligan) – Esse é lindo. Certamente a imagem mais bonita do direito, com o grande Gregory Peck num show de dignidade.

Justiça e Juízo (Maria Augusta Ramos) – Os dois documentários mostram a realidade do processo penal brasileiro com uma crueza impressionante. O que mais assusta é visualizar a tal “violência simbólica do discurso jurídico”, principalmente pra quem está começando.

Noite e Neblina (A. Resnais) – Um documentário média-metragem sobre os campos de concentração nazistas, pela lente assustadoramente suave de Resnais. É duro, mas merece ser visto.

Doze homens e uma sentença (S. Lumet) – Nem gosto muito do filme, mas reconheço que é bom para alimentar uma dúvida sobre as certezas do direito e motivar uma reflexão maior sobre prova, verdade, interpretação etc.

O processo (O. Welles) – Excelente transposição do clima claustrofóbico do livro de Kafka, com a genialidade de Orson Welles.

The corporation (J. Bakan) – Documentário sobre o mal que as corporações provocam no mundo atual. Imprescindível para perceber como o direito é  um instrumento das forças econômicas, e como nossos conceitos não são nada neutros.

 

Entendendo o fator Sarney

Do Blog do Nassif:

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/08/05/entendendo-o-fator-sarney/

Comentário: eu tenho MEDO de Collor falando na TV! Parece que ele provocou alguma lesão no cérebro de todo mundo que presenciou 1989 e o impeachment (“não me deixem só!”), ninguém sai ileso depois de uma olhada da Medusa 🙂

Comentário 2:  Collor mereceria um documentário de Lars von Trier 😉