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Jessé e a ralé

Estou empolgado com a leitura do livro A ralé brasileira: quem é e como vive, do sociólogo Jessé Souza. Isso só confirma minha certeza de que Jessé hoje é o pensador mais interessante do Brasil e consegue fazer uma belíssima e ácida releitura da tradição deixada por Gilberto Freyre e, por outro lado, de Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e Roberto Da Matta. Ou seja, um olhar crítico sobre o modo de pensar o Brasil e os brasileiros.

Gosto muito de outro livro de Jessé, chamado A modernização seletiva, pela revisão teórica e ênfase em Gilberto Freyre. Dessa vez, há uma pesquisa de fôlego e com muita observação participante, na qual uma equipe de alto nível passou a conviver com a ralé (assim mesmo, sem aspas) e entender seus modos de socialização, que vão desde o amor até o direito.

Ao assumir esse conceito pesado e questionar a eficácia de medidas de “inclusão social” pautadas apenas em valores econômicos, o livro põe o dedo na ferida para mostrar que, no Brasil, a ralé constitui um grupo indispensável para qualquer análise, assim como a imposição de padrões da elite e classe média que se introjetam de modo inconsciente no nosso modo de compreendê-la (e de sua própria autocompreensão).

O melhor de tudo é que, ao contrário de outras obras de sociologia, esse livro pode ser lido por qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico, mesmo que não seja da área. Indico fortemente a leitura, ao menos dos primeiros capítulos escritos por Jessé Souza e de algumas das pesquisas específicas. Só não tenho tempo, agora, de escrever algo mais elaborado sobre o livro, mas bem que queria…

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No meu lugar

Esse filme No meu lugar, longa de estréia do crítico Eduardo Valente (de profissão e de alma, como percebo nas discussões da comunidade “Cinemascópio” do Orkut), tem elementos bons e ruins. Reunidos, formam a meu ver um conjunto vacilante de quem pretende escapar de uma narrativa tradicional, mas não sai um milímetro da gramática carioca de sociabilidades e, de quebra, flerta perigosamente com Babel, o filme-chato-paradigma de António Iñarratu.

Ao contar uma cena de homicídio acidental praticado por um PM, após introdução ao ambiente do Rio desejado (Rocinha, túnel Rebouças, bairro aprazível…), toda a narrativa se desenvolve a partir de histórias cruzadas e, no que é mais interessante, com quebra cronológica. Esses pequenos fragmentos são unidos por uma trilha sonora irritante e invariavelmente deslocada, mas apesar disso é possível criar empatia pelos personagens – em geral, com atuações convincentes. A empregada, o entregador, a viúva, crianças de classe média, moradores de favelas.

Talvez o mais chocante para quem não esteja acostumado ao cotidiano carioca seja a vista da casa, sempre vazia ou cheia a depender das memórias que são experimentadas. A presença da favela e, num dos melhores momentos, de um assustador tiroteio que soa natural aos ouvidos acostumados. Com isso, quero lembrar a mim mesmo que esse No meu lugar tem boas e delicadas passagens, mas, apesar de um final convincente, deixa a impressão de um diretor/roteirista de modos afetados e, eu diria, muito vacilante entre o estereótipo e a ousadia.

Visto no Cinema da Fundação, 29/11/09.

Bolsa-Família para os pobres de espírito

Esse post antigo do Classe Média Way of Life merece citação ipsis literis:

Dica 011 – ser contra o Bolsa-Família

Um dos grandes absurdos deste país, para a Classe Média, é essa história de o Governo Federal ajudar pobre. Você, aspirante a médio-classista, precisa aprender a se revoltar contra isso.

Para os integrantes da classe, está sendo cometida uma grande inustiça. Por que, afinal, só alguns podem receber benefícios, enquanto ninguém ajuda quem quer pagar a prestação do carro, o colégio das crianças e as aulas de tênis? Só um país injusto como o Brasil, com o presidente que tem, seria capaz de algo assim.

Logo, o indicado é você pensar que o Lula está querendo ajudar a turminha dele (os pobres do País) e excluindo você das benesses do Estado. Então, reclame que em tudo o que acontece no Brasil, quem paga é a Classe Média. Porque os pobres são assim porque são preguiçosos. Não gostam de trabalhar. E recebendo R$80 todo mês do Governo, aí que não vão trabalhar mesmo! Eles que aprendam com você, trabalhador incansável, se um dia quiserem ter um carro zero igual ao seu!

Depois de aprender a se indignar, passe a defender, entre rodadas de uísque com os amigos, ou nas comunidades de gente “selecionada” na internet, coisas como a criação da Bolsa-Classe-Média, para garantir que o absurdo que você paga de imposto volte pra você, na forma de aulas de balé para a filha, equitação para o filho e um auxílio-guarda-roupa para sua digníssima esposa. Afinal, você já trabalha demais. E esses pobres que cortem mais cana!

Fonte: http://classemediawayoflife.blogspot.com/2009/05/dica-011-ser-contra-o-bolsa-familia.html

 

Classe média

A Carta Capital dessa semana, dentre outros textos interessantes, apresentou um blog fantástico sobre essa entidade chamada “classe média”. Só lendo para crer, 100% real e muito engraçado. Já virou link 🙂

http://www.classemediawayoflife.blogspot.com/