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Biutiful

 

Biutiful, novo filme do Iñarritu, provocou um certo sentimento coletivo de simpatia e quase comiseração pelo Uxbal, personagem de Javier Bardem. Filhos pequenos, com câncer, batalhando por dinheiro de modos ilícitos etc. Enfim, uma história bastante triste.

No entanto, tomando a obra inteira e excluindo a boa composição do personagem de Bardem, o resultado final soa fofo, desconexo com as pretensões de quem o realizou – o mesmo Iñarritú de Babel ou 21 gramas, do desejo de fazer épicos da vida cotidiana e criar empatias artificiais entre os seres humanos que filma.

Antes, não gostava muito da narrativa fragmentada do Iñarritu, por achar que ela estava ali mais para disfarçar a fragilidade do argumento que para reforçá-lo. Agora, sem o roteirista anterior (foi o que soube) e com uma linearidade tradicional, qualquer efeito mais profundo do filme é perdido pela fixação na batalha filmada, no excesso de imagem e de pontas abertas que vão diluindo o roteiro. Lembrei de uma colega professora que fala sempre que uma tese (ou um filme, por que não?) jamais pode ser vista como uma árvore de Natal, em que se pendura tudo. De mediunidade a romance gay chinês, chegamos a uma paella mal-ajambrada de retalhos, sempre na superfície.

Tenho absoluta certeza que não fui claro e essa é uma crítica bastante pobre ao Biutiful, mas a autoimponência tornou-se o meu ponto nevrálgico, minha implicância pessoal e instransferível nos últimos meses. Não entrei na onda e isso dificulta tudo.

Visto no Cine Livraria Cultura, janeiro de 2011.

 

 

Além da vida

Agora sim, uma verdadeira tuitada – não cumprida no longo post de ontem 🙂

Gostei muito do Além da vida, novo de Clint Eastwood. Desde o primeiro momento, com uma bem montada sequência de tsunami, foi possível sentir alguém com domínio da imagem e, principalmente, do que está por trás dela.

Falo na ênfase sobre o impacto da morte em vidas banais. Se em Gran Torino ou Menina de Ouro, para citar dois recentes do Clint, há pessoas que matam pessoas em ambientes notoriamente inóspitos (a rua, um ringue), agora a violência vem da natureza (o tsunami), pelo acaso (o trânsito) ou pelo passado (o trauma). Sempre felicidade esmagada…

Se for traçado um paralelo com o peculiar tailandês Tio Boonmee do Apichatpong(?), baseado numa cosmogonia bem diferente, temos duas histórias de fantasmas que transcendem um plano separado para penetrar o espaço comum. As saídas de um e outro na tela foram diferentes – Clint aposta na fala do médium, Apichatpong na incorporação à natureza -, mas ambos trazem embutidos um respeito absoluto pela dor e pela superação. Ambas honestas, humanas.

No Além da vida, fiquei impressionado com a força de um diálogo em especial, entre os personagens vividos por Matt Damon e Bryce Dallas Howard. Uma cena clássica, sem música opressiva – meu problema atual – e que fala mais dos vivos que dos mortos. Aliás, esse pareceu o recado que uniu todas as  histórias, formando uma obra bem consistente.

Visto no Cine Livraria Cultura, janeiro de 2011.

 

Cisne Negro

cisne negro

Para reanimar este combalido blog, vou postar umas notas curtinhas sobre minhas impressões sobre os filmes do Oscar 2011. A quantidade faz com que eu vá reduzindo o tamanho dos textos, que agora vão beirar uma tuitada. Também, haja filme em cartaz aqui em São Paulo, parecem gremlins que se multiplicam todo fim de semana…

A expectativa geral para Cisne Negro era grande e eu me deixei levar. Muita gente boa gostou, eu mesmo já sabia que Natalie Portman teria uma atuação destacada, mas o resultado geral pareceu meio fofo, cheio de autoindulgência e uma certa preguiça. Não passou do razoável.

Vou recapitular minha relação com os filmes do Darren Aronofsky. Adorei Pi pelas ousadias e clima.  Gostei de Réquiem para um Sonho, apesar de criticar o excesso de maneirismos, que beiram gags, e que não tiram a força de grandes cenas (uma na parte final, com Jeniffer Connelly, ainda me toca). Por fim, sou defensor de O lutador, pelo respeito ao diálogo entre o personagem e o ator, e aos fracassados na vida cotidiana.

Agora, os muitos méritos do filme (atuação empenhada de Portman e sutil de Vincent Cassel, ambientação rara dos bastidores de uma companhia de ballet, argumento crível) foram eclipsados por um afobamento bem maior que o necessário. Ao investir em muitos movimentos de câmera e no peso da trilha sonora, pontuando cada respiração da bailarina neurótica, senti um condutor com certo medo de não ser compreendido.

Se alguns filmes pecam pelo excesso de roteiro falado, quase radiofônico como diria Kleber Mendonça (A origem é exemplo recente), Cisne Negro insiste em desmembrar visualmente cada plano ao infinito como se não fosse possível ao espectador montar, ele próprio, um trajeto psicológico para a Nina Sayers de Portman. O recurso aos espelhos funciona bem, mas cansa e não é alimentado por nada além do desejo de conferir imponência num nível desnecessário.

Ficaria encantado em ver a história correr mais solta, sem esse dedo nervoso a tentar passar a voltagem de 110 para 220V a fórceps. Por enquanto, um lançamento celebrado fica para mim anotado como um filme menor por não acreditar honestamente em sua qualidade mais particular – o sofrimento que surge da cobrança externa contra a do nosso interior, num silencioso vazio.

Visto no Unibanco Augusta, em 13/02/2011.

PS – Descobri algo pior que cheiro de pipoca em cinema: cheiro de cerveja. Quente. Maldita vizinha de cadeira…

 

 

Filmes da semana

Novamente sem tempo, calma e outras condições que permitam textos longos nesse momento. Para registrar, seguem os filmes da semana com estrelinhas (tirando Um quarto em Roma, já comentado):

A mulher do lado (Truffaut) – *** (mais por Fanny Ardant aos 30, coisa linda)

Abutres (Trapero) – **** (excelente thriller, belo filme noir latinoamericano)

Tetro (Coppola) – **** (consciência, delicadeza misturada com força, sentimentos pessoais à flor da pele)

 

 

Um quarto em Roma

Em 07/09/2007 vi no Cinema Rosa e Silva o filme chileno Na Cama. Argumento interessantíssimo, boa condução, clima bastante sedutor. O que não esperava é que uma proposta tão pequena e enxuta pudesse originar dois remakes, sendo ambos ruins e chatos. O primeiro foi o brasileiro Entre lençóis, e o segundo Um quarto em Roma, do excelente Julio Medem.

Depois do excepcional Os amantes do círculo polar (o romance de Oto e Ana) e do ótimo Lucía e o sexo (esse com Paz Vega arrasando), botei fé em tudo de Medem, mas o Um quarto em Roma me decepcionou. A primeira metade do filme, em que há o encontro de Alba e Natasha, chega a ser constrangedor de tão piegas e pesado. E que trilha incidental é aquela?

A partir de um certo momento, especialmente no amanhecer, senti alguma alma na relação proposta por Medem para as personagens; talvez isso tenha acontecido quando a pretensão de ser sexy arrefeceu. Apenas nessa hora deu para interagir com a ideia, lembrar de sentimentos. Infelizmente Medem perdeu a mão, e carregou demais nas tintas do lirismo erótico quando o amor entre a espanhola e a russa por uma noite exigia algo mais luminoso desde o início. Ah, a Elena Anaya continua muito linda.

Visto no Espaço Unibanco (Augusta, lado de cá) em 08/12/2010.

Filmes, mais filmes…

A coisa está cada vez mais feia para o blog. Fui acumulando um monte de filmes e agora parece impossível escrever bem sobre todos.

Para me estimular, vou postar uma listinha dos últimos (talvez tenha esquecido algum) e aí tento rabiscar sobre um ou dois por dia. Vou também mandar umas estrelinhas de 1 a 5. Vamos lá:

Eu matei minha mãe ****

Tropa de Elite 2 ***

Cópia Fiel ****

Rio Dooman *****

A metade do mundo ***

O silêncio *

Uma criança abandonada à beira do rio **

Uma mulher, uma arma e uma loja de macarrão ****

Aceito comentários 🙂

 

Reflexões de um liquidificador

Não gostei de jeito nenhum do “Reflexões de um liquidificador”, filme de André Klotzel.

Lembro de achar interessante o “Marvada carne” (vi adolescente) e gostar, apesar de algumas tosquices, do “Memórias póstumas de Brás Cubas”, ambos de sua direção. Dessa vez, nem a excelente cenografia dos subúrbios de São Paulo salva o filme. A narrativa em “off” de Selton Mello como o liquidificador lembra seus piores momentos de dublagem, e torna a imagem irritante.

Outro problema grave é o texto dos atores. Que diálogos horríveis são aqueles? As palavras não fluem, parecem escritos sem a menor preocupação com quem os poderia ler em voz alta. Estava muito curioso para ver as atuações dos conterrâneos Germano Haiut e Aramis Trindade, mas, vendo o filme ao lado de amiga não-pernambucana, senti uma grande vergonha alheia por eles…

Ruinzinho que dói. Mas vem coisa boa por aí, a fila tá boa 😉

Visto no Espaço Unibanco (Augusta, lado de lá) em 13/10/2010.