Sobre o concursismo no Brasil

Após minha experiência recente de estudos para um concurso específico e os anos de ensino em graduação de Direito, o tema do novo “concursismo” e seus “concurseiros” passou a me interessar muito.

Podemos começar um debate a partir do texto de Pierre Lucena no blog Acerto de Contas:

http://acertodecontas.blog.br/economia/e-se-steve-jobs-e-bill-gates-tivessem-nascido-no-brasil-um-seria-auditor-e-o-outro-promotor/

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3 Respostas para “Sobre o concursismo no Brasil

  1. O texto do Pierre Lucena traduz tudo o que tenho pensado e conversado recentemente com amigos, sem jamais encontrar qualquer respaldo. Um país em que a imensa maioria de seus jovens têm como meta se tornar mais um burocrata (o mesmo se aplica a não tão jovens, porém desiludidos), só pode estar com problemas sérios. Se o Brasil deseja realmente se tornar uma potência econômica, não será através de funcionários públicos comprometidos apenas com os seus tão aclamados vencimentos, mas sim de mentes inovadoras, criativas, capazes de desenvolver conhecimentos que levarão o país a ombrear-se com as maiores potências. Isso não se dá sem incentivo estatal.

  2. Lee Van Cleef

    Acho que o texto de Pierre está correto em apontar o paradoxo de termos um quadro em que a maioria dos universitários de classe média sonham em trabalhar para o Estado. Desconheço qualquer outro país na mesma situação.

    Outro aspecto do problema é o tipo de conhecimento que é cobrado nas provas dos concursos em geral, e, especificamente, na área jurídica. Transcrevo aqui parte do que escrevi no blog de George Marmelstein e foi muito mal visto pelos concurseiros comentaristas – só não apanhei porque não podiam dar em mim:

    “Embora o concurso seja um meio democrático de acesso, as provas não se tornaram difíceis de uns anos para cá por cobrarem um nível alto de conhecimento: se tornaram difíceis por exigirem um estudo específico que não é o que resulta de um curso universitário adequado e nem é o que vai capacitar o indivíduo a ser um bom servidor no exercício efetivo da função.

    Isso fica escamoteado na discussão, porque quem passa não vai sair por aí dizendo e os que não são concurseiros ignoram o problema. Quem está olhando de fora e convive com concurseiros, entretanto, sabe muito bem do que estou falando.

    O estudo que se exige consiste em um treinamento para responder provas de concurso. Sua base é a leitura da lei e da jurisprudência – verdadeira decoreba de legislação e informativos – e a leitura, ainda hoje em segundo plano em comparação com a da jurisprudência, de manuais-resumo muito pobres. Isso quando a “doutrina” não é composta por apostilas ou aulas gravadas de professores de cursinho.

    Cansei de ver amigos concurseiros que passaram nos exames mais prestigiados estudando direito civil ou processo civil, matérias essenciais que em manuais básicos para meninos de graduação ocupam cinco ou sete volumes, por um livro de volume único. Não me diga o amigo, por exemplo, que o livro de Pedro Lenza permita um grande estudo de direito constitucional. Ou que a sabedoria haurida do livro de Fernanda Marinella o habilite a proferir sentenças seguras em direito administrativo.

    O estudo para concursos públicos é, portanto, meramente instrumental, e acho que qualquer profissional consciente confirme isso sem problemas. Passar tem se tornado difícil porque esse estudo instrumental precisa ser desenvolvido com persistência, já que a concorrência é elevada e as provas vão se tornando mais pesadas.

    Apesar disso, não tenha dúvida de que um excelente estudante de graduação que tenha feito seu curso se matando de estudar por bons livros ainda terá de passar por um período de estudo específico, porque o que se cobra não é o que se estuda em uma faculdade bem feita. E aquele que desejar ser um bom juiz, promotor ou procurador depois que passar vai ter que estudar muito por outras fontes para adquirir o conhecimento de que vai precisar para ser um prático de primeira linha, realmente competente.”

  3. Concordo com o amigo “Lee Van Cleef” sobre o paradoxal conflito entre conteúdo e prática; concursos e vida real. Um bom estudante de graduação pode não ser um bom concurseiro, assim como os aprovados em concursos, na vida prática, tem que se aperfeiçoar para que possam desempenhar suas funções. Já sobre o romantismo de uma País com jovens criativos e desbravadores (comentário de Paulo) , é uma ideia muito bonita, mas só serve pros outros. Todo mundo quer que o outro tenha uma mente inovadora, mas ninguém quer abrir mão do seu “certinho” depositado na conta lá no final do mês. Todo “louco”, todo “genial” tem (por mais que a histórias as vezes queira esconder, para não apagar a parte bonita do roteiro) uma estrutura por trás, uma base. Os grandes empresários brasileiros aparecem como “coitadinhos” nos inícios de suas biografias. Fulano de tal começou como empacotador da fábrica , e hoje é o dono. Romantismo. Qual a parte que não contaram da história? Que o pai do tal fulano era o dono da fábrica ? 🙂 Vale salientar, também, que nos últimos anos os termos “burocratas”, “interessados apenas em vencimentos”, já não cabem como definidores dos trabalhadores do funcionalismo público. A mentalidade é que tem que mudar e está mudando. O problema não é o vencimento do servidor público no final do mês. Ele é um trabalhador, ora! Recebe o seu salário como qualquer outro. A questão é a liberdade que se dá para que o funcionário público desenvolva seus talentos; preste serviços a nação de uma forma mais espontânea, sendo cobrado por resultados, assim como numa empresa qualquer.

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