Arquivo do mês: janeiro 2010

Invictus

Como já disse Kleber Mendonça Filho, numa definição perfeita, Clint Eastwood é um diretor que continua fazendo filmes de mogno numa indústria que se acostumou com plástico e papelão.

Com Invictus não é diferente. Apesar de ser inferior em roteiro e profundidade a outros da obra recente de Eastwood, como o genial Gran Torino do ano passado, nesse filme há o resgate de um roteiro clássico de filme sobre esportes que mescla batalhas pessoais com a força de um dos maiores ícones do século XX, Nelson Mandela, em interpretação excelente de Morgan Freeman. 

A ligação entre a Copa do Mundo de Rugby de 1995 e o fim do apartheid  na África do Sul é tramada como algo decisivo ou o ponto final de um processo dramático e conduzido magistralmente por Mandela, embora fique um ar de certo exagero para quem não sabe muitos detalhes. Se desconsiderarmos isso, é emocionante sua presença na tela, pois a aura de reconciliação e superação das diferenças parece sempre sincera. Isso é impressionante num filme como esse, em que os clichês são inevitáveis e necessários para manter o gênero claro – uma característica de Eastwood, como se respeitasse o cinema americano clássico.

Na verdade, esse me pareceu o paradoxo central de Invictus: fazer que um melodrama esportivo e político não perca a força e o poder de emocionar com honestidade, sem apelos. Talvez em uma condução não tão lúcida como a desse senhor de 80 anos, a biografia de Mandela fosse arrastada para um filme B de quinta. Com ele, a dignidade da vida real não desaparece. 

Visto no Plaza, 31/1/10.

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Vício frenético

Pelas reações no cinema após a sessão e alguns comentários por fora, só eu e alguns poucos gostaram de Vício Frenético, esse filme estranho de Werner Herzog que é, na verdade, um remake de Abel Ferrara (esse eu não vi). Como esse alemão genial é um dos meus diretores favoritos e autor de obras geniais como Fitzcarraldo, nem fiquei muito impressionado. E olhe que eu odiava as atuações de Nicolas Cage com todas as minhas forças…

A história do policial de Nova Orleans com dores crônicas de coluna e viciado em cocaína é, no mínimo, estranha, pelo tom absurdo que cada situação toma e pela sensação de que aquela loucura toda não vai parar nunca. Cage está numa atuação fantástica e minimalista, dando uma espécie de pausa irônica de Herzog no ritmo acelerado. Aliás, o humor do diretor é, como sempre, uma atração à parte, especialmente quando iguanas aparecem e na já clássica cena da alma dançando (essa está no trailer).

Em resumo, eu senti em Vício frenético o que todo mundo diz que sentiu em Bastardos inglórios, sendo que nesse eu não entrei no clima. O prazer de ver um filme com momentos de catarse e um risinho permanente no canto da boca.

Visto no Plaza, 16/01/2010.

Jessé e a ralé

Estou empolgado com a leitura do livro A ralé brasileira: quem é e como vive, do sociólogo Jessé Souza. Isso só confirma minha certeza de que Jessé hoje é o pensador mais interessante do Brasil e consegue fazer uma belíssima e ácida releitura da tradição deixada por Gilberto Freyre e, por outro lado, de Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e Roberto Da Matta. Ou seja, um olhar crítico sobre o modo de pensar o Brasil e os brasileiros.

Gosto muito de outro livro de Jessé, chamado A modernização seletiva, pela revisão teórica e ênfase em Gilberto Freyre. Dessa vez, há uma pesquisa de fôlego e com muita observação participante, na qual uma equipe de alto nível passou a conviver com a ralé (assim mesmo, sem aspas) e entender seus modos de socialização, que vão desde o amor até o direito.

Ao assumir esse conceito pesado e questionar a eficácia de medidas de “inclusão social” pautadas apenas em valores econômicos, o livro põe o dedo na ferida para mostrar que, no Brasil, a ralé constitui um grupo indispensável para qualquer análise, assim como a imposição de padrões da elite e classe média que se introjetam de modo inconsciente no nosso modo de compreendê-la (e de sua própria autocompreensão).

O melhor de tudo é que, ao contrário de outras obras de sociologia, esse livro pode ser lido por qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico, mesmo que não seja da área. Indico fortemente a leitura, ao menos dos primeiros capítulos escritos por Jessé Souza e de algumas das pesquisas específicas. Só não tenho tempo, agora, de escrever algo mais elaborado sobre o livro, mas bem que queria…

Nothing compares 2 U

Essa é do tempo do orelhão de ficha e do cruzado. Não sei a razão, mas é um dos primeiros hits de rádio de que me lembro, já no final dos anos 80.  Na época, ainda se convivia com um “Cidaaaaaaade” no meio da música, para inibir quem gravava fitas cassete. Era o Torrent daquela época…

Depois vi o clipe num dos programas jurássicos da TV Manchete e me encantei pelo rosto e voz de Sinead O’Connor, e nem acompanhei o que ela fez depois. Hoje acho a música brega, mas vez por outra me pego cantando o “nothing compares” no carro.

Orientanda blogueira

Fiquei feliz ao saber que minha orientanda de monografia Aline Carrilho entrou com tudo na blogosfera. Além de curtir advocacia trabalhista e direito previdenciário (nosso tema), ela também manja bem de moda e estilo. Até eu gostei da proposta 🙂

O link é esse: http://www.alinecarrilho.com.br/

Recife e FDR

Gosto muito de ver fotos e, especialmente, vídeos do Recife do passado, tentando comparar com os mesmos locais no presente. Lendo o Blog do Nassif, descobri essa raridade: vídeo de divulgação do Graf Zeppelin e de sua chegada ao Recife em 1932.

Além de um pessoal esperando no campo do Jiquiá – apenas um descampado – há imagens belas de Fernando de Noronha e, lá pelos 2m58s, uma vista aérea da Faculdade de Direito, até mais ou menos a Rua da Saudade. Na época, o palácio da FDR tinha cerca de 20 anos de inaugurado e jardins já bem arborizados.

Mau pernambucano(?)

Esse ano não vou brincar carnaval. Passarei na terra mesmo, mas vou no máximo 1 noite no Recife Antigo a depender do que rolar e do show de NX Zero (onde estiverem, lá não estarei). Outras prioridades na área, além do que carnaval “tem todo ano”. Que clichê.

Segundo Luiz Bandeira, eu, de fato, não serei um bom pernambucano esse ano. Pra me redimir, vou tentar ouvir mais frevos geniais como “É de fazer chorar”, na versão da Eddie. Belo clipe.