O século chinês

Finalmente, leio um texto que diz tudo o que eu queria dizer desde que voltei da China. O responsável foi o inglês Martin Jacques, autor do livro recém-lançado When China Rules the World (vou encomendar ainda hoje). Segue o link para a entrevista:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091026/not_imp456272,0.php

O autor parece esclarecer, de uma vez por todas, alguns pontos fundamentais nesse diálogo entre China e Ocidente e como será o mundo num cenário de hegemonia chinesa. Em todas as letras: os chineses não querem se ocidentalizar em termos profundos como direito, sexualidade, governança etc. Não querem e não precisam.

A cultura chinesa e sua tradição de um Estado forte não nasceram com a Revolução comunista, e a noção de Direito por lá é bem mais refinada que a nossa em vários aspectos (por exemplo, as soluções deles para o debate sobre legalismo vs.  justiça remonta a Confúcio, enquanto no Ocidente tomou fôlego, na melhor das hipóteses, no meio da Idade Média).  A tal “harmonia global” seria a visão chinesa para temas como multiculturalismo e gestão de riscos, por mais estranho que pareça para nós.  Além disso, isso que o autor fala quanto ao sentimento de superioridade é verdadeiro.

Depois de voltar da China e tendo conversado com chineses  de vários níveis culturais (desde PhDs até vendedores de roupa, na medida que o nosso “chinglish” permitia), passei a admirar muito o país e o povo que, além de superarem uma miséria abissal, conseguiram afirmar sua cultura e visão de mundo com bastante convicção e orgulho. Uma mostra disso é que, apesar de todo o desenvolvimento, os chineses jovens continuam dormindo cedo, não gostando de dançar, buscando casamentos duradouros etc. Além, claro, de não se interessarem muito por direitos humanos nem “liberdades”, que, para a grande maioria dos jovens, são conceitos exóticos e perigosos. Eu diria que o máximo de modernidade que um jovem chinês quer é MSN (são viciados), celular, iPod e, claro, aprender inglês para ficar rico. Ou seja, uma modernização utilitária, e não de real crença nas virtudes de Rousseau, Kant e demais.

Fico com apenas um exemplo. Segundo Simone, uma das recepcionistas do hostel onde ficamos, “too much liberties means fights and disorder”. Essa frase soaria como alienação ou pobreza de espírito aos olhos modernizantes do Ocidente, mas posso garantir que é uma ideia de base sólida, pois, como disse, a noção chinesa de direito não lida bem com indivíduos que se acham importantes ou indispensáveis, e baseia-se num coletivismo muito arraigado. Além disso, a confiança no Estado é irrestrita mesmo quando se admite seus erros. Para os mais jovens com quem conversei, o Massacre da Paz Celestial foi apenas um “mistake”, resolvido com um rápido “shit happen, flend”. Por outro lado, todos são obcecados pela ideia de riqueza e ostentação, sendo comum perguntas sobre salário, carro e tamanho de apartamento.  

A pergunta que me faço é: como uma nação gigante que se denomina “terra do meio”, chama o exterior de “pra lá” e os estrangeiros de “peludos” conseguirá, na vera, resolver seus problemas internos de diálogo com minorias e construir um diálogo intercultural equilibrado com o Ocidente? Ou melhor: se eles serão dominantes em algum momento, como o pensamento ocidental típico, incluindo a filosofia e o direito, conseguirá lidar com novos conceitos e aprender com a tradição chinesa?

É claro que essas reflexões não esgotam o problema nem têm precisão suficiente para serem levadas às últimas consequências. Espero, algum dia, escrever sobre minha experiência de poucos dias em Beijing com mais atenção, e, claro, voltar à China para conhecer mais esse país tão maravilhoso e encantador. Só posso concluir, com absoluta certeza, que o século chinês está se armando, e que as coisas estão acontecendo mesmo é do outro lado do mundo.

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4 Respostas para “O século chinês

  1. Italo Lins Lemos

    Eu não fico surpreso em ver os Estados Unidos em declínio junto ao sistema capitalista vigente. Eu não fico surpreso em ver a China, a Índia e até os ricos – ok, os riquíssimos – países que batem à porta dos fundos da Europa (Oriente Médio) em plena ascensão.

    Na verdade, e tão simples quanto olhar para o passado: O que dizer das civilizações do Egito, Turquia, Macedônia e Iraque, por exemplo, em suas fases mais brilhantes?

    Indubitavelmente, nas próximas décadas, a teoria “Chinocêntrica” virá a ser realidade. Mas, se o único aspecto em questão econômico, o declínio virá mais cedo que o esperado, já que eu aposto no surgimento de uma “nova ordem” econômica ocidental em breve. Embora, caso o nacionalismo – que lembra, inclusive, o japonês -* seja uma das principais arma desse progresso, não voltarei a apostar na frase passada.

    *se eu estiver errado, por favor, corrija-me

    Concluindo, vou deixar que Dylan expresse minha crença em versos:

    “The line it is drawn, the curse it is cast
    The slow one now will later be fast
    As the present now will later be past
    The order is rapidly fadin’.
    And the first one now will later be last
    For the times they are a-changin’.”

    Ps: João, tenho notado que os chineses são bem nacionalistas. Claramente aspectos positivos são notáveis para o próprio país, mas, a nível global [mãe-diná mode: on], arriscas algum aspecto negativo? Ou alguma influência relacionada à Coréia do Norte?

  2. Italo Lins Lemos

    Correção do ato falho:

    Embora, caso o nacionalismo (…) seja uma das principais armas* desse progresso, não voltarei a apostar na frase passada.

  3. pô, joão, nunca fui à china, pensei ainda em mandar um artigo pro IVR, mas a grana é curta e eu prefiro ir tomar água de coco na sombra aí na terrinha.
    Mas, sinceramente, não consigo entender a possibilidade de um capitalismo taoista, um capitalismo que não seja formador, exatamente, desses indivíduos burgueses que baseiam sua vida numa sensível tensão entre a vida íntima e a vida profissional, em que ambas se tornam palco de decisões egoístas e pontos de equilíbrio para uma disciplina dos prazeres que se acopla, como engrenagem de uma máquina, a uma economia mais ampla de de reprodução impessoal da riqueza e do poder.
    Tás ligado naqueles textos de Foucault sobre a revolução iraniana, né… Mesmo ele viu, logo depois, que dava pra enquadrar aquilo tudo na dinâmica do dispositivo da sexualidade.
    Quero dizer… Tu acreditas realmente que a china está construindo um capitalismo “harmônico” em que o autoritarismo é aliado ao individualismo? bem… diria que, mesmo se for algo assim, isso não é novo. A personalidade autoritária e o debate da TC sobre o nazismo apontava exatamente para essa possibilidade. E como o resultado da própria dinâmica da razão instrumental… aqui poderíamos, sem problema (apenas como dinâmica impessoal) falar também do dispositivo da sexualidade.
    Bem, sou bastante cético quanto a essa história. Ademais, vi em Flensburg uma apresentação de 5 chineses, mestrandos em política, sobre essa história de Harmonia…. Me pareceu uma ideologia de estado (tola e superficial, ao menos como eles apresentaram) conflitando com um visível indiidualismo burguês, tudo mediado por um nacionalismo que é, no fundo, o maior risco dessa história toda.

    abraço.

    • direitoesubjetividade

      Cara, não acredito nessa noção de “harmonia” chinesa não. Até pq essas bases confucionistas sempre correm, como vc percebeu, pra um caminho de fortalecimento da autoridade do Estado.
      O que me interessou, mais como constatação mesmo, foi o refinamento que a discussão deles tem nos círculos mais qualificados (não poderia sequer detalhar agora), e o pouco interesse em abandoná-la em prol das “nossas” ideias para a questão do indivíduo, dentre elas Estado de Direito, direitos humanos, vida privada etc. Por exemplo, eu acho que uma cultura/educação de DH na China deve ser um desafio e tanto, já que chineses, em geral, não pensam muito em intimidade ou na intangibilidade de algo como um “eu” primeiro. No entanto, essa foi uma reflexão que apenas começou pra mim…
      Valeu pela contribuição, qd quiser escreve algo q eu posto e continua comentando, ok? 🙂

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