Bastardos Inglórios

 

Eu relutei muito em escrever sobre Bastardos Inglórios, novo filme de Quentin Tarantino (ou “o novo Tarantino”, modo mais mudernu e pomposo de se referir a filmes como vinhos). Minha relutância vem do medo de estar completamente fora de qualquer padrão coletivo de sentido sobre o referido, doravante chamado de “balconista de locadora” ou apenas “balconista”, e não me fazer entender por ninguém. Mas, como os leitores do blog são compreensivos com minhas bobagens, tomei mais uma dose de coragem.

A sinopse do Bastardos é bem conhecida e não vou explicar de novo. Prefiro focar no ponto que me deixa angustiado: o filme é objetivamente bom. O balconista tem um talento incrível de controlar câmeras, enquadramentos e principalmente tempo de cenas e diálogos. Coisa de Kubrick, Hitchcock. A montagem é excelente, fotografia bonita e cuidadosa, as referências ao cinema são apaixonadas e emocionantes em alguns momentos, o roteiro tem uma construção organizada. A arte desse filme é coisa de louco, parece que houve um cuidado quase paternal em cada detalhe. Apesar de tudo…não consigo gostar.

O que me incomoda no balconista de locadora é perceber uma visão de mundo extremamente pequena e adolescente, em que toda a dimensão humana resume-se a violência, vingança e sarcasmo. É como ver um geniozinho em fúria, mas que, desligada a câmera, parece ter um cérebro do tamanho de um grão de quinua, sem que as questões saiam um milimetro sequer da superfície. Não que eu exija, em cada filme que vejo como reles espectador, uma Weltanschauung elaborada. Meu problema reside na ausência de questionamento sobre os efeitos de certas afirmações ou na crença de que tudo, na linguagem, é uma brincadeira infantil ou adolescente, sendo essa aura ingênua o que mais me incomoda nos filmes do balconista.

Fico com Spike Lee no que se refere ao balconista e aos Irmãos Coen, dos quais gosto e pretendo escrever depois: os caras são bons, talentosos e tal, mas precisam refletir se certas coisas são realmente engraçadas. Talvez o balconista merecesse usar seu talento para filmar o roteiro de outro alguém que não seja um de seus amigos, e aí, quem sabe, eu goste dele. Esse Bastardos, de novo, me deixou num beco sem saída entre a linguagem fílmica e, como diz o amigo Heitor Hedler, minha incomunicável linguagem privada.

PS – resumo: adorei Pulp Fiction e Cães de Aluguel, achei Jackie Brown simpático, parei Kill Bill 1 no meio e pretendo não ver os próximos filmes do balconista.

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3 Respostas para “Bastardos Inglórios

  1. João, concordo com muito do que disseste. Achei o filme repetitivo, no espírito, na galhofa que soa bem até os 20 e poucos anos. As piadas são as mesmas de sempre.

    Algumas cenas são incríveis. A primeira cena é contraditória e genial. Dura e sensível, surpreendente e previsível. E o Christoph Walz é o núcleo de tudo. Me impressionei e achei que o filme ia ser bem melhor… mas também fui me decepcionando. Até o momento final, quando o filme parece que pode terminar novamente de modo tocante. Lamentei o fato de que, na última cena, o filme decide realmente apenas mais uma piada adolescente, perdendo uma chance incrível. A piadinha da suástica na testa deixou passar algo que tinha sido grande: o fim fantástico para a guerra que, não sei se é novo, mas do qual gostei bastante. Fiquei pensando que aquilo era algo que um alemão, por exemplo, jamais poderia fazer.

    No final, gosto do tarantino, mas acho que o público dele é adolescente ou fanático. Eu não confio muito em pessoas que jamais amadurecem. Ou melhor, que simplesmente não mudam.

    • direitoesubjetividade

      Pois é, vou por aí tbm: não gosto de público adolescente ou fanático, e Tarantino acabou representando isso. Óbvio que tbm me incomodou muito a visão do nazismo e dos alemães – aliás, do processo todo – que não tem a mínima coerência com a realidade. Ok, é ficção, mas soou como desprezo pelas bullshits intelectuais sobre Holocausto, novamente uma saída teen-tarantinesca 🙂

  2. Concordo com os comentários sobre a cinematografia. Ele é muito bom em técnica e não acho que isso seja discutível.
    E os aspectos “subjetivos” do filme… bem, acho que vc pode me chamar de teen. Eu adorei o filme, e as partes que tu não gostou me divertiram muito e arrancaram boas risadas. Pois é, quando entro numa sala de cinema me desprendo da veracidade e, nesse caso mais ainda, porque o estilo faz meu tipo. Além de atender bem ao propósito: vou lá para me divertir. Talvez eu só esteja fazendo juz aos meus vinte e poucos anos, é verdade… mas gosto que seja assim e é fato que vibro quando há produção nova do Tarantino por aí.

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