Nelson Chaves

Segue abaixo um texto recebido por email da minha mãe, e de autoria de Luís Otávio Cavalcanti. Já excluída a admiração de neto, é mais uma bela homenagem a quem tanto fez pela saúde pública do Nordeste, e em quem sempre busco um exemplo.

Nelson Chaves ou o evangelho social do cientista

 por Luiz Otavio Cavalcanti

Lembro de Nelson na casa de meu pai. Almoçava, um fim de semana ou outro, vestindo a mesma expressão, ao mesmo tempo viva e tranqüila. Exibia um meio sorriso de quem já sabia a resposta à pergunta que ele próprio fizera.

Lendo o livro, editado pela Universitária (UFPE, 2008, Recife), organizado por Christina Costa e Eunice Lago, senti falta de fotos. Principalmente de uma fotografia que recuperasse aquele sorriso feito de coisa ante-sabida.

Para mim, falar sobre Nelson é escutar a voz dos meus. No conceito de meus não incluo só os parentes. Abranjo também a categoria dos iguais, que defendem o social, que combatem a desigualdade, que olham o Nordeste e vêm problema e solução. Como Nelson.

Quem é pesquisador e acredita no que faz, termina sobrevoando a pesquisa para elevar seu trabalho ao domínio da filosofia social. O cientista do calibre de Nelson começa pesquisador e termina filósofo. Inicia-se na micro-análise e finda na macro-proposição. Começa de um certo tamanho e, crescendo, conclui a obra, maior. É a pergunta que Malaquias Batista Filho propõe no prefácio: “quais são nossos valores na sociedade ?”.

É igualmente a indagação do próprio Nelson, reproduzida por Oscar Coutinho Neto, no posfácio: “Que civilização é esta em que a ambição desenfreada conduz o homem à auto-destruição?”.

Enxergo em Nelson uma espécie de homem-árvore, que produz ramos fortes, frondosos, dando frutos. Penso em dois de seus frutos: a visão de futuro plantada no Instituto de Nutrição e a percepção da totalidade social.

Na visão de futuro, semente que gerou o atual Departamento de Nutrição, um dos mais qualificados do país, Nelson mostrou a capacidade de estruturar a ação. E, ao fazê-lo, de disseminar o conhecimento para ampliá-lo e melhor beneficiar o povo.

Na percepção do todo social, Nelson entendeu perfeitamente a lógica da fome. A desnutrição não se resolve como problema econômico ou como questão social. Porque é problema político. Por isso, ainda há fome no Brasil, principalmente no Nordeste. Fosse problema econômico já estaria resolvido por investimentos multinacionais. Mas não é. Depende de política. Nacional. Nelson disse: “A desnutrição não é fenômeno isolado. Faz parte do complexo de pobreza” (Nutrição e desenvolvimento, 1976).

Há outro aspecto da personalidade de Nelson que me chama atenção. É o fato de que ele poderia ter ido para os Estados Unidos, de onde recebeu convites para financiar suas pesquisas com mil vezes mais dinheiro do que os que tinha aqui. Ouvi ele dizer isso, lá em casa, mais de uma vez. E, aceitando, tornar-se muito mais conhecido do que foi, permanecendo no Recife.

Mas ele não quis. Não o seduziu a vaidade da exposição. Preferiu continuar em sua terra, fez a escolha do azul. Nelson era do time de Gilberto Freyre e Luis da Câmara Cascudo. Preferiam sentir o cheiro de maresia, enraizar-se no equacionamento da saúde tropical. Por isso foram tão grandes. Porque souberam ser locais.

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