Tortura – I

Apesar de ser um assunto bem conhecido, o histórico recente da CIA e de suas práticas de tortura foi revelado num novo relatório oficial, publicado há poucos dias. É assustador, triste, revoltante, tudo ao mesmo tempo, pois mostra pra todos nós como é difícil superar esse verdadeiro câncer da política moderna. Franceses, latino-americanos, asiáticos, americanos…”democratas”, ditadores, todos.

Aí vão os links, com destaque para o segundo:

http://washingtonindependent.com/56175/the-2004-cia-inspector-generals-report-on-torture

http://www.gwu.edu/~nsarchiv/torture_archive/index_ig.htm

Três pontos para reflexão.

O primeiro refere-se à própria concepção de Estado de Direito. Talvez Carl Schmitt estivesse certo ao dizer que o verdadeiro estado é o da exceção, quando a força eclode e uma “pulsão criativa” da política é liberada. Ou seja, o estado visto como simples canal para um movimento irrefreável, ou para a defesa da sociedade. O governo Bush mostrou isso de modo bem claro com o Patriot Act e Guantánamo: a garantia de um sistema liberal e previsível de direitos é tão frágil que pode ser, numa canetada, suspensa em prol de uma exceção permanente, que seria a verdadeira política dos nossos tempos. Que o digam Walter Benjamin (Sobre o conceito de violência) e Giorgio Agambenn (Estado de exceção).

O segundo é mais pesado. Até que ponto a modernidade conseguiu consolidar, entre seus participantes, um meio-termo entre a violência e o poder e alguns padrões coletivos de respeito e tolerância? Cenários de crise como esses do pós-11 de setembro dão margem a conclusões sombrias quanto à impossibilidade de diálogo e formação de consensos mínimos – o que, como Habermas e outros bem lembram, não é de todo verdadeiro e nos conduz a um caminho de resignação.

Terceiro: qual é a força constitutiva do Mal? Ela existe, de fato? Hoje assistimos, no GDS, ao filme Noite e Neblina de Alain Resnais, e debatemos sobre a oposição entre essa tese e àquela que vê, no modelo dos campos de extermínio, uma lógica pervertida de produção sem indivíduo, em que o homem não desaparece apenas como “rosto desenhado na areia” (Foucault, As palavras e as coisas), mas como matéria-prima para cobertores, sabão e abajures. Essas são sempre questões espinhosas e, todavia, inevitáveis quando pensamos na relação entre direito, subjetividades e algum padrão que seja de ética ou dignidade universais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s